O livro autobiográfico Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens
Paiva, inspirou o aclamado filme homônimo de 2024 dirigido por
Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres e Fernanda Montenegro,
que levou a emocionante história da luta de Eunice Paiva contra os
abusos da ditadura militar e o esquecimento às telas do cinema
mundial.
Em Ainda Estou
Aqui, Marcelo Rubens Paiva afasta-se momentaneamente da sua
conhecida ironia para entregar uma narrativa de imensa delicácia e
urgência histórica, transformando as memórias de sua família em
um tributo à dignidade, à justiça e à resistência contra o
esquecimento.
A Trama e o Tom
O livro é uma obra de não-ficção que reconstrói a trajetória
de Eunice Paiva, mãe do autor. A narrativa se divide em dois tempos
fortes que dialogam constantemente. O primeiro deles revisita o
trauma de 1971, quando o ex-deputado Rubens Paiva foi arrancado de
sua casa no Rio de Janeiro por agentes da ditadura militar, torturado
e assassinado, deixando Eunice com cinco filhos para criar. O segundo
tempo acompanha os anos finais de Eunice, diagnosticada com a doença
de Alzheimer. O tom da prosa é de uma sobriedade comovente: não há
espaço para o melodrama barato; em vez disso, há um realismo
afetuoso que equilibra a dor da violência política com o luto
íntimo de ver a mente da mãe apagar-se aos poucos.
Pontos Fortes
A Centralidade de Eunice Paiva: O livro acerta
imensamente ao colocar o holofote não apenas no trágico
desaparecimento de Rubens, mas na figura monumental de Eunice. Vemos
sua reinvenção como advogada, defensora dos direitos indígenas e
sua luta incansável para que o Estado brasileiro reconhecesse
oficialmente a morte de seu marido. Ela é a personificação da
resiliência.
A Dupla Metáfora do Esquecimento: A costura poética
e dolorosa entre o apagamento da memória individual (causado pelo
Alzheimer) e a tentativa de apagamento da memória coletiva e
política de um país (cometida pelo regime autoritário) confere à
obra uma densidade filosófica marcante.
A Prosa Íntima e Sincera: Marcelo escreve com a
proximidade de quem resgata diários, cheiros, piadas internas e o
cotidiano de uma casa vibrante que, mesmo marcada pela tragédia,
recusou-se a adotar o papel de vítima passiva.
Pontos de Crítica
Estrutura Fragmentada: Para leitores que buscam uma
cronologia linear rígida, os constantes saltos temporais entre a
juventude dos filhos nos anos 1970, o ativismo de Eunice e a rotina
da doença nos anos 2000 podem exigir uma atenção redobrada no
início da leitura.
Veredito
Ainda Estou Aqui é uma leitura fundamental para o Brasil.
Mais do que o relato de uma dor familiar, é um documento
indispensável sobre a importância de lembrar para que não se
repita. Ao registrar a lucidez implacável de uma mulher que lutou
contra a barbárie, Marcelo Rubens Paiva garante que a história de
Eunice permaneça viva, tátil e inesquecível, sobrevivendo ao tempo
e ao silêncio.
Você acha que livros que misturam memórias pessoais com a
história política do país conseguem aproximar mais o leitor da
realidade dos fatos do que os livros tradicionais de História?
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