sexta-feira, 12 de junho de 2026

Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva.

O livro autobiográfico Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, inspirou o aclamado filme homônimo de 2024 dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, que levou a emocionante história da luta de Eunice Paiva contra os abusos da ditadura militar e o esquecimento às telas do cinema mundial.

Em Ainda Estou Aqui, Marcelo Rubens Paiva afasta-se momentaneamente da sua conhecida ironia para entregar uma narrativa de imensa delicácia e urgência histórica, transformando as memórias de sua família em um tributo à dignidade, à justiça e à resistência contra o esquecimento.

A Trama e o Tom

O livro é uma obra de não-ficção que reconstrói a trajetória de Eunice Paiva, mãe do autor. A narrativa se divide em dois tempos fortes que dialogam constantemente. O primeiro deles revisita o trauma de 1971, quando o ex-deputado Rubens Paiva foi arrancado de sua casa no Rio de Janeiro por agentes da ditadura militar, torturado e assassinado, deixando Eunice com cinco filhos para criar. O segundo tempo acompanha os anos finais de Eunice, diagnosticada com a doença de Alzheimer. O tom da prosa é de uma sobriedade comovente: não há espaço para o melodrama barato; em vez disso, há um realismo afetuoso que equilibra a dor da violência política com o luto íntimo de ver a mente da mãe apagar-se aos poucos.

Pontos Fortes

  • A Centralidade de Eunice Paiva: O livro acerta imensamente ao colocar o holofote não apenas no trágico desaparecimento de Rubens, mas na figura monumental de Eunice. Vemos sua reinvenção como advogada, defensora dos direitos indígenas e sua luta incansável para que o Estado brasileiro reconhecesse oficialmente a morte de seu marido. Ela é a personificação da resiliência.

  • A Dupla Metáfora do Esquecimento: A costura poética e dolorosa entre o apagamento da memória individual (causado pelo Alzheimer) e a tentativa de apagamento da memória coletiva e política de um país (cometida pelo regime autoritário) confere à obra uma densidade filosófica marcante.

  • A Prosa Íntima e Sincera: Marcelo escreve com a proximidade de quem resgata diários, cheiros, piadas internas e o cotidiano de uma casa vibrante que, mesmo marcada pela tragédia, recusou-se a adotar o papel de vítima passiva.

Pontos de Crítica

  • Estrutura Fragmentada: Para leitores que buscam uma cronologia linear rígida, os constantes saltos temporais entre a juventude dos filhos nos anos 1970, o ativismo de Eunice e a rotina da doença nos anos 2000 podem exigir uma atenção redobrada no início da leitura.

Veredito

Ainda Estou Aqui é uma leitura fundamental para o Brasil. Mais do que o relato de uma dor familiar, é um documento indispensável sobre a importância de lembrar para que não se repita. Ao registrar a lucidez implacável de uma mulher que lutou contra a barbárie, Marcelo Rubens Paiva garante que a história de Eunice permaneça viva, tátil e inesquecível, sobrevivendo ao tempo e ao silêncio.

Você acha que livros que misturam memórias pessoais com a história política do país conseguem aproximar mais o leitor da realidade dos fatos do que os livros tradicionais de História?

https://www.youtube.com/watch?v=_NzqP0jmk3o







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